Triiiim... Triiiiiim...
-Alô?
-Carina*?
-É ela... quem ta falando?
-É a teacher*!
-Ooooi, teacher! Ráu ariú!? Tudo bem?
-Tudo, fiquei preocupada, você não aparece na aula há duas semanas... Liguei pra saber se ta tudo bem...
-Ah, ta tudo bem, sim... Mas eu desisti do inglês por enquanto...
-Por que??? [Abismadíssima]
-Ah, porque eu to cuidando de outras coisas, meu trabalho ta fogo, não to conseguindo estudar, então parei..
-Ah, entendi...
-Mas... teeeacher... Parei porque achei que estava atrasando a turma...
[Teacher pensando...]
-Mas, Carina... Como assim “atrasando” a turma? Poxa, voltamos quase dez lições, porque NINGUÉM está acompanhando...
-Ah, eu sei...
-Então!? Não entendi...
-Bem, talvez sua didática...
[Opa!!!! Respira... respira... 1, 2, 3...]
-Como é??? Minha didática!?? Fique você sabendo que esta turma...
-Qual turma...?
-A sua, Carina! ...que esta turma é a turma pela qual mais me esforço... Sei que todos vocês são adultos, têm problemas, trabalho, etc, etc, etc... Acompanho cada um, individualmente, você sabe...
-Sei...
-Voltamos (repetindo) dez, DEZ lições, porque meu objetivo, ao dar aula, é sair da classe tendo a certeza que todos sabem e entenderam o que eu tinha para explicar. E o motivo por quê voltei dez, DEZ lições é este!
-Mas, mesmo assim, achei que estava atrapalhando a turma...
-Poxa, Carina!
[Teacher tendo um colapso nervoso]
-Poxa, Carina... Essa turma foi formada em setembro... Na última aula, que você não foi, fiz um esqueminha diferente, e coloquei no whiteboard algumas questões para o povo responder... Coisinha básica, da lição três, quatro... Tipo “Do you want to go to the U.S.A.? Why?”... Sabe…?
-Sei… e aí?
-E aí? E AÍ??? E aí que o que era pra ser rapidinho, cinco minutos, demorou a aula inteira!!! A AULA INTEIRA! Vocês estão na lição 22 – Vinte e dois! Era só pra esquentar a galera para a conversação... Poxa, lição quatro... QUATRO! To vendo que, apesar do meu esforço dentro da classe, e fora dela, mandando e-mails com exercícios, corrigindo as lições com os maiores detalhes, incluindo asteriscos com observações importantes pra vocês, vocês simplesmente não estudam... Sentam-se na classe e pensam: “Aprenda-me”... Assim não dá...! Ta ficando difícil... Pedi nos e-mails as respostas... dúvidas... E alguém mandou resposta?? Não! Alguém fez os exercícios? Necas! Porque eu chego na classe, ta todo mundo com cara de paisagem quando pergunto sobre os tais exercícios... “Ai, teacher, não deu...” “Ai, teacher, essa semana foi foda...” “Ai, teacher, não consegui arrumar um dicionário...”
(continua abaixo)
Polemizado por ...enfys... às 11h20
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(...)
-Bem, deixa pra lá, só estava desabafando... [O estômago da pobre teacher se manifesta com uma dorzinha chata, que ela sabe que não vai passar tão cedo]
(...)
-Humm... como era a pergunta mesmo?
-Ah, sei lá... não lembro... Dei um exemplo qualquer agora...
-Não, mas repete...
-“Do you want to go to the U.S.A.? Why?”
-Humm… ih… repete... fala de novo a penúltima palavra...
[Teacher mais vermelha que um pimentão, atacando o cinzeiro na parede]
-U.S.A., Carina… U.S.A. …
-Ah! Você tá falando dos Estados Unidos….? Aaaaahh...
-É, Carina...
-Mas o que que tem os Estados Unidos, teacher?
[A teacher morreu]
-Tu- tu- tu- tuu...
-Teacher... Teacheeeeer???
*Os nomes foram trocados para proteger a fucking identidade da interlocutora e da coitada da Teacher... Essa é uma história real, infelizmente...
MORAL DA HISTÓRIA:
SEJA UMA PÉSSIMA PROFESSORA; ASSIM, QUANDO OS ALUNOS RECLAMAREM DE VOCÊ E DA SUA DIDÁTICA, TERÃO FUNDAMENTOS REAIS!
Minha didática, o cacete!!
Revoltei!
Polemizado por ...enfys... às 11h20
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A MULHER QUE ROUBAVA - PARTE III - FINAL
“Me dá mais uma chance”, falou, quando finalmente saiu do banheiro. “Juro que não faço mais. Mas, por favor, não me peça para devolver o que peguei. Tenho vergonha demais, e, aliás, nem sei o que fiz com as coisas”. “Venha cá, meu bem. Eu estou contigo. Mas terá de me prometer de uma vez por todas que nunca mais fará isso”. “Eu prometo, contanto que você fique ao meu lado”. “Eu ficarei”. Puxa, como sofri aquele dia.
No dia seguinte, fui trabalhar, ainda no shopping center. Os donos gostavam do meu trabalho, tanto que tinham me indicado a um amigo ricaço, para ser segurança particular, no período da noite. Aceitei na hora. Ia poder ganhar mais um dinheiro, para poder me casar com Mônica. Era o que eu mais queria. Uma família, filhos, casa confortável... Daqui pra frente, eu teria como.
Éramos felizes. Num domingo, sugeri casamento, ela amou a idéia. Sentamos uma noite dessas e começamos a calcular. Não precisaríamos de uma casa imediatamente, já que vivíamos com certo conforto na pensão, e uma casa como sonhava ter ainda estava fora de minhas possibilidades como segurança. Resolvemos, então, comprar um carro. Dei um jeito de dividir o valor em 48 prestações. Quatro anos passam rápido. Valia a pena.
Quando cheguei à pensão, naquela segunda-feira à noite, e entrei no meu quarto, só quis chorar. A cama nua, sem lençol, travesseiros, cobertor, nada. Só o colchão estendido, sozinho. Os porta-retratos com as fotos de família não estavam lá. Dentro do criado mudo, nada, a não ser um bilhete dela e o bloqueto bancário do carro, cheio de parcelas pra pagar. Peguei o bilhete dobrado: “Te amo, querido. Tudo está comigo, venha e ficaremos juntos para sempre. Mônica”. Amassei-o, tamanha a minha raiva, e atirei-o pela janela. Abri os armários, nem um copo, nem um prato, nada! Como pôde fazer uma coisa daquelas comigo? Até o maldito tapete do chão a mulher levou! Não sobrou nada. Nada. E o pior: não fazia a menor idéia de onde poderia estar. Como é que poderia “ir”? Estúpida!
Saí, e fui falar com o dono da pensão. Ele me disse que Mônica havia passado, e lhe pediu a chave, alegando que queria levar as roupas de cama para a lavanderia, juntamente com o tapete. Ele a ajudou a carregar tudo para o nosso carro! Disse-me que ela parecia eufórica, e quando lhe perguntou se estava tudo bem, ela disfarçou e disse que era apenas uma dor de cabeça.
Voltei para o quarto e recomecei a chorar. Ela havia levado tudo. E, apesar do que dizia o bilhete, eu sabia que não a veria nunca mais. Tudo estava perdido. Ela roubara, além dos meus pertences, que eram nada perto do que eu lhe comprava, minha esperança. Na verdade, eu lhe dava tudo, gastava o que ganhava com ela. Levara também minha alegria. E minha honestidade: eu havia sido cúmplice de seus roubos durante meses a fio... Mônica roubara de mim a vontade de viver.
Apesar de tudo, e com o passar dos anos, a raiva passou e voltei a pensar nela com carinho. Uma parte de mim ainda acreditava que ela voltaria. Trabalhei em dobro para pagar o carro, para não deixá-la em apuros. Nunca deixei de amá-la. Lembrava-me toda hora daquele seu olhar triste. Acabei esquecendo do que me fez, tamanha a vontade que tinha de reencontrá-la. Mas nunca mais a vi, aquela mulher que roubava.
Polemizado por ...enfys... às 15h52
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A MULHER QUE ROUBAVA - PARTE II
Tão-logo me sentei, ela começou. “Eu mesma devolvi o pacote... Estou doente, como disse, em tratamento. Não sou ladra, sou cleptomaníaca”. Ela achou que eu não sabia o que era. “É, tenho uma doença que me impulsiona a roubar”. Bem, pra mim, roubar era coisa de malandro, de vagabundo. Mas ser cleptomaníaca dava “status” ao que ela fazia, até um certo charme. Ela abaixou a cabeça.
“Desculpe-me, não quis ser indelicado”.
“Tudo bem... sei que é vergonhoso. E ainda atrapalhei seu trabalho. Sou eu quem tem de me desculpar, por isso queria falar com você”.
Ela continuou aparecendo no shopping de vez em quando, mas nunca mais correu de mim, ou roubou nada. Não que eu tenha percebido. Ia lá mais para me ver, como dizia. Tudo bem que quase sempre portava uma sacola ou duas, mas não lhe fazia perguntas: fechei meus olhos para não perturbá-la mais. O que temia de verdade era que alguém suspeitasse dela e não fosse tão estúpido quanto eu, e a denunciasse. Comecei a me sentir seu protetor, apaixonado que estava. Cuidava bem do meu trabalho, mas também cuidava dela.
Ela parecia gostar de mim também. Apresentei-a à minha família. Eles acharam mesmo estranho uma mulher ricaça daquela, educada e tudo, com um mero segurança de shopping (não que eu fosse feio; nas baladas, sempre arranjava companhia, era boa pinta, sim). Mas, você sabe, as diferenças sociais...
Ela freqüentava a casa dos meus pais e era querida também na pensão onde eu morava na época. Ela não tinha amigos, ou família, assim dizia. Então, estávamos sempre juntos. Onde quer que eu fosse, ela estava comigo. Parecia uma pessoa muito triste e sozinha, mas não por opção. Tinha pena dela quando abaixava a cabeça daquele jeitinho; queria segurá-la em meus braços, protegê-la de todo o mal, dela mesma... Eu também estava passando por uma fase solitária; era bom tê-la perto de mim. Éramos companheiros de verdade. De vez em quando íamos visitar uns amigos meus, que moravam no Centro. Passávamos o sábado todo lá, quando eles faziam um churrasquinho.
Até que coisas começaram a sumir de suas casas. Eles, sem desconfiar de nada, no início, me diziam que coisinhas sem valor sumiam de uma hora para outra. Ficava realmente preocupado, mas, por amor a ela, abanava a cabeça e ficava quieto.
Da minha casa, nunca desapareceu um copo sequer. Ela me respeitava, ou ao menos conseguia se controlar quando estava comigo. Mas os relatos dos meus amigos e família me faziam sofrer mais a cada dia.
Depois de alguns meses sustentando esse peso sozinho, resolvi falar com ela. Muni-me de toda a coragem e frieza, e intimei-a. “Mônica, como anda o tratamento?”. “Por que está perguntando?”, seus olhos se apagaram, sua boca tremeu. “Ando ouvindo histórias, e não estou gostando disso. As pessoas estão começando a desconfiar. Se continuar assim, não sai mais comigo. Não te levo à casa de ninguém”. Fui curto e grosso, como diz o outro. Ela caiu em desespero, se enfiou no banheiro e não quis abrir a porta. Fiquei gritando do lado de fora um tempão, ela só chorando. Pedi-lhe que se abrisse comigo. Estava realmente sofrendo muito por ela. Amava-a demais. Não queria deixá-la.
Polemizado por ...enfys... às 11h46
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