GUERRA À VISTA!
ou
Como declarar guerra apertando um único botão
[O céu, antes cor-de-rosa, com a partida do sol, avermelha-se profundamente, enquanto ganha tons azuis grotescamente borrifados de negro. De repente, pode-se ouvir um batalhão, montado em seus enormes cavalos, cujos cascos socam e ferem o chão, em minha direção, para me amparar e guerrear ao meu lado. Alguns homens vêm à frente, a pé; assemelham-se a grandes e infernais ursos, que rugem e gritam de uma forma terrível. O batalhão vem em duas únicas linhas horizontais, a dos homens-ursos, e a dos homens montados, tomando para si o espaço entre as montanhas, e enchendo o horizonte de fumaça e fogo de suas tochas...]
Há certas pessoas nesta terra que existem por um único e vital motivo: atazanar a minha existência pacífica e mundana. Uma delas, só por existir, já me atabalhoava a vida... Há quatro anos e pouco, porém, fizemos um trato, reconhecido por lei e protegido pelos deuses do norte. Este trato se chama Victoria. Pois desde então, este colega de profissão vive por uma só destinação: atrapalhar minha vida e entristecer a dela.
Os primeiros dois anos e tanto, ele passou sem acompanhar o trato, sem revisar nem atualizar qualquer coisa que lhe apetecesse. Após este período, no entanto, o trato ganhou pensamentos próprios, e começou a indagar sobre o tal colega.
"Mamãe, onde está o papai? A fulaninha da escolinha tem um que vai buscá-la todo dia..."
"Pois bem, filha, vamos ligar pra ele e pedir para que venha."
O diálogo entre mim e ela, dois anos depois do praticamente primeiro contato, continua o mesmo.
"Pois bem, filha, vamos ligar pra ele e pedir para que venha."
Eu simplesmente não entendo esta atitude, sendo que conheço alguns grandes pais que trocariam qualquer viagem pra Europa por um fim de semana com a cria... Que sofrem por estarem longe de seus filhos, e que sofrem com a maldade de algumas ex-mulheres recauchutadas em não permitir que pai e filho se vejam e se amem como deveria ser! Pelas barbas de Thor, tudo o que eu mais queria nessa vida era ver a Victoria em paz com seu pai, vendo-o com freqüência, tomando sorvete com ele, contando suas histórias tão engraçadinhas que vive na escola... Ela o adora e quer estar com ele!!!
Pois ele, com um botão, consegue mandar tudo por água abaixo... Basta um único toque, identificado com o número da minha casa ou do meu celular, e o botão vermelho (sim! aquele que nunca devemos apertar, segundo qualquer desenho animado ou filme de aviões e submarinos...), o maldito botão vermelho entra em ação.
"Tuuuu....... tuuuu.....
Tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu"
Tento de novo:
[Musiquinha de operadora de celular] "Este celular está temporariamente desligado".
Pra ele, basta apertar o botão, olhar pro lado, e dizer: "Acho que era só minha filha querendo chorar de saudades no meu ouvido e pedir pra que eu a veja... Mas agora estou muito ocupado lendo mangá..." E assim a história está encerrada pra ele...
Pra Vica ela apenas começa... O que eu digo a ela, numa situação dessas??
"O fone do papai está desligado, filha..."
"Ah, de novo, mamãe?? Puxa vida, viu... Será que ele nunca quer falar comigo...?"
["Não, filha. Não é isso. Ele é um bundão mesmo!! E se eu pegasse aquele filho da puta na frente agora, bastaria olhar pra essa sua carinha de decepção e mágoa, e eu degolaria o mal-fadado com toda a força da minha alma em chamas!!!"]
"Não, Vica... ele deve estar na aula/no trabalho.. [Na puta que o pariu!!!] Tentamos mais tarde, certo?! E que tal se a gente jogasse damas agora?!"
E assim eu sigo enrolando a pequena... mas, até quando?!
Espero, do fundo do meu coração, que um dia ele perceba o que está acontecendo, porque apenas minhas palavras e explicações não o convencem... Espero, ainda mais, que esse dia não seja muito tarde, e seja ela quem vai apertar o botão vermelho quando ele chamar...
Ele pensa que eu quero deixá-la com ele pra ir pra "balada"... Ha! Mal conhece a filha dele! Ela, sozinha, já é a balada mais legal que eu já conheci!!!
Polemizado por ...enfys... às 20h24
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