O fragmento apresentado agora se passa na França do século XVI, em frente à Catedral de Notre-Dame, em Paris. Em frente à catedral há um palco de execução, e uma platéia barulhenta assiste à cena.
Personagens
Mulher julgada
Carrasco
Amante benevolente
A platéia de camponeses em alvoroço assiste à chegada da mulher julgada por um crime. O carrasco encapuzado, sobre o palco, segura uma machadinha. A mulher sobe ao palco determinada, enquanto a platéia lhe atira vegetais e gritos cruéis e orgásticos. Correndo surge no meio da platéia um jovem, que se dirige ao palco. Ajoelha-se diante da mulher, ofegante.
Mulher julgada – (Dirigindo-se ao jovem enquanto aponta para o carrasco) Vês este carrasco? Ele é a personificação do único amor eterno: o amor impossível. Vamos à procura do amor-carrasco, aquele que com golpes frios nos arrancam a consciência aos poucos. Enquanto os belos amores disponíveis e lindos sonhos, como tu próprio, suspiram e nos desejam!
Amante benevolente – Se queres, posso virar teu carrasco, ó, amada!
Mulher julgada – Oh não! Isso jamais!
Amante benevolente – Mas acabaste de dizer que preferes os amores carrascos a mim e meus sonhos e planos... Ainda que desta forma desumana, deixa-me amá-la!
Mulher julgada – Não! Pois se virares meu amor carrasco, aí então não mais te poderei amar! Espere... Disseste “desumano”? Não! Tal busca é tão maldita e humana quanto a busca por água e alimento.
Amante benevolente – O que dizes, mulher! Refere-te à busca da dor!
Mulher julgada – Refiro-me ao amor eterno!
Amante benevolente – Pois, enquanto falas assim, não vejo distinção.
Mulher julgada – A dor é o estágio máximo do amor, e não há amor se há proximidade, rotina e intimidade. O verdadeiro amor só passa a existir quando nós criamos dentro de nós os fundamentos e regras para que ele se alimente e cresça. Ninguém jamais será capaz de alimentar o amor com as regras do outro, e com interferência das situações corriqueiras!
Amante benevolente – Cansei-me! Falas em demasia! Deixo-te com teu sofrimento ao mesmo tempo em que me liberto do meu. Ainda que acabes por amar-me, não creio que suportaria tuas delongas. Tanto melhor que eu vá agora e poupe-nos do futuro incerto e do fim de meu amor por ti.
E vai-se o cavalheiro, deixando a mulher em choque sobre o palco. A platéia agora está em silêncio, observando com olhos confusos a mulher. Neste momento, o carrasco que afiava a machadinha durante a conversa, abaixa a arma, e dá um passo em direção à mulher para consolá-la. Ele tira o capuz, ela levanta os olhos mareados e percebe que aquele carrasco é seu velho amor não correspondido. Então ela o olha friamente, como a um desconhecido, volta a face para onde o amante benevolente se dirigira, e docilmente encosta o rosto no tronco da execução. O carrasco percebe então que não há mais nada a fazer senão dar cabo à execução. A mulher abre os olhos uma última vez para assistir a partida de seu amor não correspondido e recebe o golpe fatal.
Polemizado por Enfys Vanadizzy às 11h25
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