Conto, mas sem ponto nem vírgula
Porra, o peste do Zeca deixou um recado tão esdrúxulo pregado na minha porta que na hora que li, não sabia se ria ou se chorava. A Ana diz que ele anda se metendo com aquela galera dos 502 outra vez. Meus pêsames ao teu canário. Sei que cantava bem e tudo o mais, mas é só um canário, e canários sempre haverão de existir.
Começar carta com olá tudo bem é um treco tão obsoleto que nunca devia ter existido. Imagine Machado de Assis usando uma cafonice dessas em alguma das suas. Desmembrava esse homem da minha estante no ato se ficasse sabendo. Tudo bem: coisa mais piegas. Mas acho que todo mundo – to no meio – tem uma certa dificuldade de começar coisas assim, do zero, do nada. Pô, uma folha de papel em branco não é desafio menos importante que qualquer outra coisa, não importa o número de letras e baboseiras que a gente tenha pra desaguar nos olhos de quem vai ler.
Aquele maldito da Anatomia veio com gracinha hoje de novo pra cima de mim e da Ju. Não sei se foi sorte ou azar que eu tava com o Jamanta na coleira. Queria ver a cara dele se eu mandasse o Jamanta pegar. Mas preciso desse cara numa boa pra poder fazer a transferência. O negócio agora pra mim é outro: vou encarar aquela turma sacana da Geo, certeza que tem mais a ver.
O joelho já melhorou, obrigada.
Jamanta pegou dia desses uma cueca rasgadassa do lixo do vizinho da frente. Você tinha que ver o estado da coisa. Eu ri tanto, mais de imaginar aquele cara vestindo aquilo, trapos pendurados e moles, como deve ser o pinto dele. Hoje encontrei com o dito no elevador. Porra, difícil não rir, olhando praquela cara e imaginando a cena. Deve ter me achado uma louca; mal sabe o que eu acho dele.
Fizeram uma reforma na padoca do Zelão. Na boa, ta parecendo um puteiro, ou o projeto de um. Uns trecos estranhos pendurados, uma parede chapiscada que dói a vista de tão roxa, um quadro de uma mulher segurando uma flor. O sujeito disse que é pra atrair os jovens, que ele ta cansado de bebum bebendo fiado. Concordo com o Zelão! Mas que a padoca é outra, lá isso é. Quem sabe o cara não se dá bem mesmo.
Puta que pariu! Você chegou a ver por aí o lance que eu te pedi? O J. falou que por lá ta caro pacas, e eu não to numas de pagar toda essa grana. O trabalho ta indo bem, mas tenho planos pra esse semestre e ia foder tudo se não guardasse unzinho. Vê isso lá e me avisa, right?
A banda do Rico vai de mal a pior. Os caras só querem saber de reunir aqueles intelectuerdas amigos deles e fazer um som pink-floydiano. O som era bom antes, mas agora ta uma merda, chato de doer, todo enfumaçado, o estúdio e a cabeça deles. Pouco a pouco a gente vai perdendo a coragem de se jogar de cara nas coisas, inda mais com essa loucura generalizada.
O cristal que você me deu ainda vive, bem e feliz do lado do maço de cigarros e da tintura de arnica. E não é que a geringonça funciona mesmo!
Caralho, acabei de derramar vinho na saia. A gravidade não perdoa nem uma alma. Nem uma saia... Deve ser a vibração dos trapos do vizinho, ou o impacto da padoca do Zelão.
Não vá dizer que não te disse, que se não ta tudo aqui, certeza que ta no meio da porunga. É só olhar direito.
Ainda esperando,
Fer
P.S.: Diz o que achou do livro do André. Ele ta doidão pra liberar, mas precisa de apoio moral.
Nota: o conto é meu, inspirado em um conto de Ana Cristina Cesar.
Não morri, não sucumbi, não pereci. Estou apenas por aí, o que não impede nada do que possa ser feito ou dito em forma de qualquer outra coisa que não seja msn.
Polemizado por Enfys Vanadizzy às 23h31
[ ]
[ Divulgue a polêmica ]
|