Etimologia Infantil
De onde vêem nossos mecanismos de raciocínio, da forma de vermos o mundo? É claro que de uma construção que se dá à medida que vamos crescendo, desde criança... desde o primeiro suspiro, quando colocamos pela primeira vez o ar do mundo em nossos pulmões, estabelecendo a troca mais significativa com o mundo exterior. As experiências na relação com a mãe, o nosso primeiro “outro”, nos apoiaram para descobrirmos que somos “um”, que eu sou eu. Interessante também é a construção da linguagem. Até hoje sinto as influências das experiências de menino em coisas e situações que se passam aparentemente sem chamar a atenção. Mas é só olhar para elas atentamente, driblando o automatismo cego da nossa encenação habitual que me vejo pequeno, conhecendo o mundo.
Até pouco tempo atrás, eu me pegava usando palavras que não existiam, justamente porque as concebi quando criança e passaram batidas até agora! Por exemplo, aquelas casas bonitas com um muro dividindo-a ao meio simetricamente em duas residências iguais. Isso mesmo. Eu as chamava, até pouco tempo atrás, de “casa germinada”, como se uma parte tivesse germinado da outra, como uma influência de um fenômeno botânico. Quando me corrigiram pela primeira vez quanto a isso, fiquei tão decepcionado como quando me contaram que Papai Noel não existia... Geminada? De gêmeos? Não fazia sentido. A palavra nem deriva de um verbo, pelo menos! Ou existe a palavra “gemear”? Germinada sim, fazia sentido. Tive que dar o meu braço a torcer, afinal de contas não conseguiria mudar o Aurélio por isso. Demorou 30 anos para cair essa ficha.
Outra palavra que me intrigou foi “pazes”. Eu tinha menos de sete anos e escutava as pessoas da família dizendo esta palavra entre aqueles discursos misteriosos do mundo dos adultos. Lembro-me bem da noite em que esta questão tomou forma e que a cataloguei na minha “lista de coisas intrigantes do mundo” (eu e minhas listas!). Lá, por exemplo, já havia o item “porque todas as flanelas são cor-de-laranja?”. Pazes. Escutei a Tia Antônia que morava em Pinheiros, no tempo em que lá não havia um boteco se quer. Ela disse naquela noite pra mim: “Você já fez as pazes com a sua prima? Faça as pazes com ela!” Caramba! Como é que é isso? Vinham na minha imaginação duas pás colocadas em xis como um símbolo da reconciliação. Interessante que eu sabia a intenção da palavra, reconciliação. Mas o caminho do entendimento daquela palavra era extremamente intrigante. O que duas pás teriam haver com reconciliação? Lembrei logo que na escolinha dávamos o dedo mindinho aos colegas, cruzando-os, para simbolizar o fim do “estou de mal”. Significava “agora estamos de bem”. Dois dedinhos como duas pás. Vai ver que era por isso. Pazes. Eu não sei por que, mas eu associava a esse mistério a cor roxa. Eram duas pás brancas (olha o simbolismo) sobre um fundo roxo e a Tia Antônia narrando ao fundo: “Fazer as pazes...”
Bom, pelo menos esse mistério foi solucionado logo em seguida, quando entrei no primário. Não precisei passar por 30 anos para entender isso, como foi o caso das casas geminadas. Mas ainda algo me intriga e continuo a preencher aquela lista: o que será que ainda tenho para decifrar enquanto herança daquela época? Acho que Freud pode explicar. Enquanto isso, vou fazer as pazes com minha prima e tentar um financiamento de uma casa geminada.
Polemizado por Eduardo às 14h39
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