Certa vez, uma senhora veio me pedir esmola.
Não é impossível adivinhar pelos meus doces olhos meigos que eu não colaboraria com esse tipo de coisa nem daqui um milhão de anos, e que seria mais fácil me ver beijando de língua um urubu do que dando esmola pra alguém.
Neguei a ''ajuda'', e aproveitei o momento para perguntar a ela o por quê de pedir esmola.
Ela me respondeu que era inválida - não poderia trabalhar pois tinha um defeito na mão direita. Sua mão ficava a 90 graus de seu braço, e lhe era impossível voltar a mão ao normal, ou seja, em linha reta com seu braço, ou movê-la de alguma forma. Parecia mesmo uma mão francesa, ou a famosa ''munheca'' que todos conhecem.
Como ela viesse até mim com a ''mão de esmola'' em riste, não tive a menor idéia de que aquilo era um defeito (embora no sentido figurado eu já saiba que o é). Perguntei a ela o que havia acontecido.
Ela me disse calmamente que sua mão havia ''ficado assim'' com o passar dos anos, de tanto pedir, oferencendo a miserável mão daquela maneira aos outros.
Se eu senti pena?
De forma nenhuma.
Senti, ao contrário, um desamor profundo pelas pessoas que até aquele momento lhe deram algo e incentivaram-na a continuar, e a atrofiar um membro tão importante e que poderia ter sido uma fonte de energia, um meio para mudar, nem que fosse um pouquinho, esse mundo sórdido em que somos obrigados a viver...
Polemizado por Enfys às 15h28
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