Um amigo para Catharina
Os dias passavam como um vestido de veludo sobre o mármore encerado de uma estátua grega. Eram leves e contentes, causando nela uma sensação de paralisia latente, uma sensação de que seus órgãos estavam se movimentando a cada minuto mais devagar, trabalhando com mais lentidão e sossego, e ela os sentia fatigados. Passou-lhe pela cabeça que eles poderiam realmente parar, um belo dia, alegando estafa...
Apesar de por dentro reclamar do ócio, ela não queria morrer ainda. Era jovem e plena de vida, embora esta lhe tenha zombado usando como artifício a rapidez – pois ninguém jamais haverá de negar que a vida nos zomba sem piedade, mas deve fazê-lo por boas causas. Ela sentia como se anos durassem meses, dias durassem minutos, horas piscadas.
Ela sentia muito. E era sentimental. Demais. Mas não ajudava o tempo passar tão rápido às vezes, pois nesse caso as emoções se misturavam violentamente, e já ela não mais sabia por quê chorava nem por quê sorria. E ficava confusa. E vinha a inércia: só ela em câmera lenta, e o mundo em frenesi, passando tão afoito que não a notaria nem se o cheiro dela lhe despertasse a maior paixão... Ninguém jamais se enamorara dela, e dessa forma, ela tampouco saberia reconhecer o amor, nem se o mundo apaixonado e bruto esbarrasse nela...
E assim prosseguia Catharina.
Com a sensação de que seu corpo trabalhava devagar demais, e o mundo na antítese, e ela, como uma cobaia, se tornando mais e mais o resultado vivo dessa bagunça...
Polemizado por Enfys às 17h56
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