Certo dia, eu estava cortando a unha do pé no ônibus, quando sentou-se um sujeito ao meu lado, no banco.
Ele ficou me olhando, olhando, e depois de uns cinco minutos de contemplação, perguntou O que você está fazendo. Senti um tom de indignação na pergunta, mas, sem desviar os olhos da unha encravada, respondi Fazendo a unha dos meus pés, não está vendo, e ele deu de ombros. Quando terminei de passar o esmalte, com muita dificuldade, já que o ônibus percorria frenético seu itinerário, calcei novamente as sandálias e notei que podia estar perto do meu ponto.
Como não soubesse exatamente onde descer - apenas fazia idéia - perguntei à senhora que estava sentada à minha frente. Ela tinha cara de quem sabe de tudo, sabe, essa cara de gente fofoqueira; pois bem. Embora ela parecesse bastante ocupada tirando a sobrancelha, meu tempo era curto, e tive de interrompê-la.
Meu palpite, correto: era daquelas senhoras sabidíssimas, fuçadas, saca, e foi logo me dando uma relação de empresas e estabelecimentos comerciais da área, e me indicando lugares para comer ali, e onde jamais pedir nem um café.
Desci do ônibus e foi supimpa. O ponto era o correto, e meus pés estavam em ordem e bonitos.
Fui feliz naquele dia.
Polemizado por Enfys às 18h20
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